Nos anos setenta, a principal imagem era a figura humana, centrada nos problemas político-sociais, vivíamos a ditadura militar. Essas imagens não poderiam ser outras, senão aquelas oprimidas pelo regime. Eram personagens com olhares desconfiados, bocas amordaçadas, ou outros que diziam sutilmente: O Brasil vai bem – nós, nem tanto!… … Nessa época aqui em Curitiba, não havia nem um terço do que se tem hoje, em matéria de informação, acesso a livros de arte (principalmente os importados) vídeos, workshops, oficinas e festivais de arte, muito comuns hoje.

O que tínhamos eram os encontros de arte moderna promovidos pelo diretório da Escola de Belas Artes do Paraná…

A arte dos anos setenta, foi uma espécie de laboratório para muitos artistas.

Uma coisa boa, em meados dos anos setenta foi a criação do Centro de Criatividade de Curitiba, no Parque São Lourenço… lá, fiz o meu primeiro curso de litografia, com o gravador gaúcho Danúbio Gonçalves, em 76…

Nos anos oitenta éramos “Pós” alguma coisa, artistas dessa geração (principalmente nos grandes centros) eram os pós-modernos, pós-vanguardistas, pós-neoconcretos, instaladores, performáticos,etc.

… Observava-se em salões e bienais, artistas brasileiros também se influenciarem com o novo expressionismo alemão (aqui no sul também).

Eu não tinha pretensão de me engajar em nenhum movimento nem seguir as tendências da moda, só queria aprender, estando atenta às minhas realidades.

Ao voltar, ao exercício do desenho, isso levou-me a procurar a beleza da figura, o corpo no seu ritmo apressado, do movimento à dança dos corpos,….

Fiz alusões à mulher, às mulheres de Goya, de Toulouse, à mãe, à Polaca de Curitiba, à Gilda (travesti conhecido de nossas ruas) entre outros personagens que fizeram parte da minha história, de meu olhar.

Nesse ritmo tracejado com cor e movimento, eu precisava apressar o passo solitário, do “ser” artista neste país, não me desligando das vertentes da arte brasileira, acompanhando a contemporaneidade, dialogando com a pintura, mais num processo emocional, pensando os grandes mestres mas tentando buscar meus próprios referenciais…

Em meio ao Conceitualismo que pairava de leve no Paraná, ou as “releituras”, eu seguia minha procura…

Nessa fase, (86) esculturas de Cláudio Alvarez (pai de Tiago e Julia, meus filhos) escultor da linha, da luz e do movimento também vem acrescentar formas à minha pintura (são gomos de ferro e aço, estruturas tencionadas, linhas no espaço)… … Mais tarde esses objetos contornados, simétricos tendem a sumir (92/93) para dar lugar a espaços abertos, campos de cor, com inscrições, linhas veladas, verticais e inclinadas, tentando estruturar a pintura, cortando ou se inserindo em triângulos, às vezes transformando-se em caligrafia… ao mesmo tempo, querendo uma pintura informal, aberta, sem estruturas pré-estabelecidas, só a expressão espontânea do gesto…

O exercício da gravura trouxe-me a disciplina do fazer, do organizar. A escultura esteve sempre muito próxima, desenhei objetos, fiz maquetes, mas não cheguei a concluí-las até o momento. Minha identificação com a pintura sempre foi mais forte… Influências:

Em 1978/79 o fato de estar aprendendo gravura em metal e me deparar com imagens de Marcello Grassmann, a aura de seus personagens, o jogo de claro-escuro de suas gravuras, acabei me influenciando nestes primeiros trabalhos… Mais tarde conheci as pinturas de Helena Wong, nossa grande pintora chinesa – paranaense (In memorian) que me remetia a Francis Bacon, embora meu universo fosse outro a sua força de expressão de alguma maneira me impressionava…

… O gesto expressionista de juntar, de colocar as tintas, com verocidade, desintegrando realidades como pintor Iberê Camargo, me enchia os olhos.

No decorrer do meu processo e aprendizado, fui descobrir afinidades pela pintura e pela caligrafia oriental, assim como muitos artistas do nosso século.

… Identificava-me cada vez mais com o expressionismo abstraio, admirava os mestres dessa geração a exemplo do americano Franz Kline,.ele também demonstrou gestos espontâneos, gestos estes, influenciados pela califragia oriental.

… Nos identificamos com aqueles, cujas linguagens nos permitem um pensar íntimo, nos emocionam e parecem estar espiritualmente mais próximos.

… Todo meu processo criativo tem relação com momentos, percepções e o próprio viver.

Mazé Mendes

Trechos de depoimento a alunos da Faculdade de Artes do Paraná e Universidade Tuiuti para efeito de monografia/96

 

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